De cabeça erguida pra vida

Da Grota, Três Rios, à neurologia: André Salustiano cresceu com estudo e empatia; exemplo que inspira jovens.
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Lide: Da Grota, em Três Rios, às clínicas próprias no Rio e no interior, a trajetória de André Salustiano é feita de estudo, resiliência e propósito. Inspirado desde cedo pela música e movido pela família, ele transformou obstáculos em combustível para se tornar referência em neurologia.


“A neurologia veio da empatia, de entender o perfil do paciente, de ver a pessoa atrás da dor. Hoje não me vejo fazendo outra coisa.” — André Salustiano

Origem e infância

Nascido em maio de 1971, André Salustiano Araújo Ramos é filho de Anícia e Júlio. Chegou ao mundo após a mãe perder dois filhos e engravidar aos 40 anos. O pai faleceu quando ele tinha apenas dois anos; as lembranças ficaram pelas fotografias. A criação coube à mãe e à avó materna, dona Erotildes, que viviam na mesma casa.

A infância se desenrolou na Rua Orozimbo Flores, na Vila Isabel, em Três Rios—mais exatamente na Grota, numa servidão chamada Vitalina Ramos. Era uma área muito pobre; André lembra de ter contraído hepatite devido ao esgoto a céu aberto. A convivência com primos foi intensa — e formativa. Foi com o primo Deco que ele diversificou o gosto musical, trocando Menudos por U2, Dire Straits, Rolling Stones, Titãs e Paralamas do Sucesso.

Entre estudos e afeto, veio um gesto que marcaria sua história: André alfabetizou a avó. A tia Arlete comprou quadro, giz e cartilha; o que ele aprendia na escola ensinava em casa. No segundo grau, já lia Dostoiévski com dona Erotildes; na faculdade, recebia cartas escritas por ela. Com bolsa mantida por frequência e boas notas no Colégio Ruy Barbosa, André sonhou com a Marinha — fez preparatórios pelos Correios e tentou o Colégio Naval, mas não ingressou.

Rumo à medicina

O interesse pela medicina ganhou força ao acompanhar os primeiros sinais de Alzheimer na avó. A estratégia para chegar lá envolveu cálculo e coragem: prestar vestibular para farmácia bioquímica na UFRJ, mudar-se para o alojamento na Ilha do Fundão e, já no Rio, estudar para medicina. O cursinho Bahiense apoiou sua trajetória, inclusive congelando mensalidades.

No meio do caminho, veio a exaustão. Sem conseguir conciliar universidade e cursinho, ele voltou para casa para estudar com tranquilidade. O resultado: aprovação em sétimo lugar em medicina e 51º na classificação geral da UFRJ.

Formação e virada de chave

A entrada no curso revelou um ambiente desafiador: maioria de alunos de alta renda, poucos de classe média e, entre os que vinham do interior, André era o único aluno preto da turma de 80. Morando no alojamento, encarou artigos em inglês, finais de semana sem dinheiro para ir para casa e três reprovações em bioquímica.

O ponto de virada veio com terapia gratuita e atividades físicas diárias. “Cheguei ao fundo do poço naquele momento”, lembra. A partir dali, virou o jogo: notas 9 e 10, oito anos de curso, três turmas atravessadas e muitas horas no centro cirúrgico. Curiosidades do caminho também o marcaram, como ver cirurgias cardíacas em que, após a extracorpórea, além da técnica, havia uma oração. Ele cogitou psiquiatria, depois neurocirurgia, mas escolheu a neurologia — decisão consolidada na pós-graduação na PUC-RJ/Santa Casa de Misericórdia.

Plantões e aprendizado na emergência

Recém-formado, voltou a Três Rios para “ver a cor do dinheiro”, comprar um carro e sair do alojamento. Assumiu plantões em Areal, Três Rios e Sapucaia — com três meses de salário, financiou um Pálio em 60 vezes. A passagem por hospitais de alta complexidade, como o Salgado Filho, deu estofo para encarar a emergência: “O médico da emergência não precisa cravar o diagnóstico, mas precisa saber qual paciente pode mandar para casa e qual tem que internar”. Foram dez anos de plantões, com salvamentos inesquecíveis e perdas que “levam um pedaço seu embora”.

O neurologista — consulta que ouve, acolhe e explica

Os atendimentos como neurologista começaram em 2006. Muitos dos primeiros pacientes o conheciam da rede pública e seguiram com ele no consultório particular — famílias inteiras que o acompanham até hoje. Conversa longa e escuta ativa são marcas do consultório: “Tem pessoas que chegam com dor de cabeça e, na conversa, entendo que a vida está de cabeça para baixo e é isso que gerou a dor”.

Hoje, André atende nas clínicas próprias — a Neuroclin — em Três Rios e no Rio de Janeiro, além de consultas em Paraíba do Sul. A rotina começa às 5h30 com atividade física. O volume de casos complexos é grande; por isso, as válvulas de escape são essenciais.

Entre as demandas atuais, ele vê crescer a procura de adultos que descobrem o TDAH e querem lidar melhor com o transtorno, numa jornada de autoconhecimento.

Vida, referências e propósito

Nos fins de semana, a simplicidade é regra: chinelo, bermuda, camiseta e praia. A esposa, Daniela Gibaldi Salustiano, testemunhou a conquista do consultório próprio no Rio: obstáculos muitos, mas superados pela determinação. André faz questão de ter ambientes impecáveis — passa mais tempo neles do que em casa.

A família é base. A prima Valéria Cristina fala de sua presença no cotidiano; Liene Araújo recorda a formatura como ápice de uma conquista por esforço e amor à profissão. Cristiane destaca a disciplina de um médico preto que construiu carreira tijolo por tijolo e o diferencial do acolhimento ao paciente.

Em casa, outra paixão: os seis cães da raça Rottweiler. A fêmea teve 11 filhotes e o próprio André realizou o parto, que durou seis horas. No tempo livre, duas viagens por ano para viver outras culturas sem roteiros prontos — o que mais o atrai são as relações humanas. Planos? Ter experiência médica no exterior, fazer um curso de verão em Paris e conhecer a sede dos Médicos Sem Fronteiras.

Os filhos que a vida lhe trouxe — Vinícius Salgueiro e Mikael Lucio — também são motivo de orgulho. Vinícius lembra do pai que ensinou a rezar e do exemplo empreendedor de quem vendeu carro para investir na clínica e manteve as finanças sob controle.

Representatividade que inspira

“Não fui de pegar atalho pronto”, resume André. Ao entender seu lugar, percebeu a força da própria trajetória como referência para jovens de periferia: alguém que saiu de uma infância muito pobre e conseguiu fazer o que queria. “É importante sonhar acordado todos os dias porque, em algum momento, esse sonho vai se materializar.”


Para guardar: estudo como hábito, família como alicerce, empatia como método e propósito como direção. Tudo, sempre, de cabeça erguida.

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